sexta-feira, 23 de julho de 2010

Da arte de subornar crianças - Um pouco sobre o teatro na escola

Ivinhema (MS), em janeiro de 2008.

Escrevi esse texto em 2002. É raro eu gostar de escritos antigos, mas esse eu continuo gostando. Foi feito quando eu, quase diariamente, visitava escolas para vender espetáculos de teatro. Foi publicado no site de um jornal esotérico, do qual fui colaborador por pouco tempo (apesar de não ser tão esotérico assim).

Importante:  Na época, eu vendia projetos e era integrante do Grupo Te Conto Umas; por isso a menção nas últimas linhas. Hoje não faço mais parte.

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A coisa não chega a ser generalizada, talvez aconteça muito pouco, mas o desejável seria que não acontecesse nunca. Só que acontece, e anda acontecendo cada vez mais. E pode ser o princípio da deformação de algo que é fundamental no desenvolvimento do gosto pela arte e pelo teatro nas crianças: o suborno.

A coisa se dá assim: um grupo de teatro, ou uma peça, procura uma escola oferecendo seus serviços. A escola, preocupada em fomentar atividades culturais e de entretenimento, ouve a proposta desse grupo. Discute daqui, discute dali, e o bravo representante do espetáculo revela o trunfo: damos brindes às crianças, sem custo para a escola. É claro que não existe nada grátis, bem sabemos, e é certo que o cachê do artista poderia ser mais barato e diminuiria o ingresso que os pais de cada criança pagariam, mas o já citado bravo representante acaba fazendo acreditar que sim. Há também os que oferecem lanche. E há os que promovem emocionantes sorteios de bicicleta, fazendo do espaço escolar uma extensão dos programas de auditório dominicais. 

E o espetáculo? E a qualidade dos atores, da música, dos textos utilizados? Será que não é suficientemente estimulante para crianças e educadores o ‘fazer artístico’? Não é isso que interessa no espaço de uma escola? Será necessário ‘subornar’ crianças, e fazê-las acreditar que um espetáculo vale pelos mimos que distribui e pelas balinhas que atira a elas?

As escolas e os educadores, muitas vezes, são envolvidos por um discurso de vantagens fáceis, e acabam por assimilar esse discurso. E então, quando são procurados por outros profissionais, perguntam: vocês dão alguma coisa para as crianças? E cria-se uma modo Chacrinha de fazer teatro, um hábito de ‘vocês querem bacalhau?”, que fazia todo sentido no Programa do Chacrinha, mas que é uma deturpação grosseira no que diz respeito ao teatro.

Parece-me que não precisamos formar pessoas adaptadas e inseridas nos códigos do populismo. Até é admissível distribuir e sortear o que quer que seja: no Te Conto Umas isso já aconteceu. Vez por outra, uma empresa parceira nossa oferece e se encarrega de providenciar alguns presentes. Mas nunca utilizar isso como gancho, como uma escada, como algo maior do que o espetáculo em si. Você nunca verá um cartaz do Te Conto Umas que comunique mesmo que discretamente “distribuição de brindes”. Se vir, por favor, rabisque a parte em que isso está escrito. Você estará prestando um inestimável serviço a nós. E a todos os que sabem porque o teatro é importante.

sábado, 10 de julho de 2010

Tire a leitura do "cantinho"


No canto da minha casa ficam algumas coisas. Um estante que não uso, um colchão que é usado quando recebo visitas, o aspirador de pó. Apenas coisas com funções restritas. Se eu perdesse esses objetos, talvez nem me preocupasse em os repor. O aspirador eu poderia substituir por uma vassoura ou um pano úmido em minhas faxinas; o colchão eu poderia substituir por um modelo inflável, que ocupa menos espaço. E da estante eu não preciso mesmo.

Esse é o "cantinho" da minha casa.

Falo isso para falar da leitura na escola. Porque, hoje, vejoque existem 3 tipos de espaço para livrosna escola. A biblioteca, a sala de leitura, e o "cantinho da leitura".

A cada roda de leitura que ministro eu faço questão de perguntar ao educador da escola presente qualo espaço de leitura que a escola dispõe. Pois creia. As que dizem que possuem um "cantinho da leitura" mostram alunos com uma situação de leituras bastante precária.

Não é por acaso.

As palavras tem peso, principalmente para as crianças, que estão descobrindo-as. Acho que o "cantinho", ao contrário do um aspecto afetivo, ressalta uma idéia de desimportância. Diz com todas as letras que a leitura ocupa na escola um lugar subalterno, acessório, e que se resume a um "cantinho".

Para o cantinho vão os alunos que ficam de castigo. No cantinho também se colocam as latas de lixo.

Claro que a maioria das escolas possuem poucas salas, e muitos não podem dar-se ao luxo de uma sala específica para os livros. Mas a questão não é essa. A questão é semântica. Não importa que o acervo de livros seja pequeno, acomodável em duas prateleiras. Não importa. Porque aprendi na escola que coletivo de livros é "Biblioteca", e o coletivo se aplica a qualquer coisa que tenha mais de uma unidade.

O que diferencia a minha biblioteca pessoal da Biblioteca Nacionalda Cinelândia é apenas o tamanho do acervo. Apenas.

Por isso, aceitem a sugestão. E botem no cantinho o que tem pouca importância.

sábado, 3 de julho de 2010

História de 2 Copas


(Em 2006; em 2010)


Sou daqueles que não tem superstição porque acha que elas dão azar. Mas vejam:

Em 2006, o Brasil jogava na Copa contra a França pelas quartas-de-final. Fui chamado para fazer uma apresentação teatral no Sesc Tijuca que não esperava fazer, porque não estava escalado para tal. O Brasil perdeu, foi elimidado, e eu fiz o trabalho em seguida.

Em 2010, o Brasil jogou na Copa contra a Holanda, pela quartas-de-final. Na véspera, fiquei sabendo que deveria fazer uma roda de leitura no Sesc Barra Mansa (por causa do jogo, eu esperava seu adiamento).O Brasil perdeu, foi eliminado, e eu fiz o trabalho em seguida.

Por isso, me solidarizo com Mick Jaegger.